O Brasil pode viver um cenário crítico no abastecimento e no preço do diesel, caso atenda à sugestão da Otan e interrompa as importações do combustível da Rússia, atualmente seu maior fornecedor. A avaliação é de especialistas e representantes do setor de combustíveis, que alertam para o impacto na oferta e na alta de preços em um mercado já pressionado por tensões geopolíticas globais.
A advertência foi feita após declarações do novo secretário-geral da Otan, Mark Rutte, que indicou que manter relações comerciais com Moscou pode tornar o Brasil alvo de sanções econômicas. A medida visaria aumentar o cerco à Rússia em razão da guerra contra a Ucrânia, que se prolonga desde 2022.
Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic), entre janeiro e junho de 2025, mais de US$ 2,5 bilhões em diesel russo foram importados pelo Brasil, o equivalente a mais de 40% do total adquirido no exterior. Os Estados Unidos aparecem como segundo maior fornecedor, seguidos pela Arábia Saudita.
Dificuldade para substituir a Rússia
A dependência brasileira do diesel russo se aprofundou após a União Europeia proibir a importação do combustível daquele país, gerando excedente e preços mais atrativos para mercados alternativos — como o brasileiro. “O diesel russo chega a custar R$ 0,10 abaixo da média internacional”, explica Eric Gil Dantas, economista do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos e Sociais (Ibeps).
Dantas afirma que, caso o Brasil rompa com a Rússia, terá dificuldade para encontrar alternativas. “Os EUA atendem prioritariamente a União Europeia, e a relação comercial com o Brasil está abalada, sobretudo com ameaças como a de tarifas de 50% às exportações brasileiras feitas por Donald Trump”, afirma o especialista.
Os possíveis substitutos, como Emirados Árabes, Kuwait e Índia, ainda não possuem relações comerciais consolidadas no setor com o Brasil. A escassez de opções pode provocar aumento nos preços internos e até risco de desabastecimento.
Mercado em alerta, mas sem decisões
O presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo, trata a fala da Otan como uma ameaça ainda especulativa, mas demonstra preocupação:
“No passado, importávamos dos EUA. Mas hoje eles priorizam a Europa. Se a Rússia sair, há sim risco de desequilíbrio na oferta”, afirmou.
Araújo também prevê elevação de preços diante de uma possível redução na disponibilidade global de diesel.
Papel da Petrobras
Embora a Petrobras afirme que não importa diesel da Rússia, a estatal tem papel estratégico na cadeia. Eric Dantas lembra que ela compra diesel de outras regiões, como EUA e Golfo Pérsico, e está ampliando a produção interna.
Projetos como a expansão de refinarias em Pernambuco e no Rio de Janeiro, com investimentos acima de R$ 33 bilhões, poderão reduzir a dependência externa — mas o efeito só será sentido em dois ou três anos. “A negligência dos governos anteriores, que não investiram na capacidade de refino mesmo com o aumento da produção de petróleo, agora cobra seu preço”, conclui o economista.





