A menos de quatro meses da COP30, programada para ocorrer em Belém (PA), de 10 a 21 de novembro de 2025, cresce a insatisfação de países estrangeiros com os preços exorbitantes cobrados pela rede hoteleira da capital paraense. Diárias que normalmente custam cerca de R$ 700 chegaram a ultrapassar R$ 10 mil — até 15 vezes o valor regular.
A escalada dos preços levou o secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC) a convocar uma reunião de emergência na última terça-feira (29/7). Representantes de delegações internacionais chegaram a sugerir que a conferência fosse transferida para outra cidade brasileira caso a situação não seja resolvida.
Revolta internacional
O presidente da COP30, embaixador André Corrêa do Lago, admitiu publicamente a gravidade do impasse.
“Há uma sensação de revolta, sobretudo por parte dos países em desenvolvimento, que dizem que não poderão vir à COP por causa dos preços extorsivos”, afirmou.
Segundo ele, em outras cidades que sediaram a conferência houve aumento de até três vezes nos preços de hospedagem, mas em Belém os valores superaram dez vezes o padrão normal, criando um ambiente de insatisfação generalizada.
A denúncia ganhou força após o negociador africano Richard Muyungi declarar à Reuters que delegações pressionam por uma mudança oficial do local:
“O Brasil tem muitas opções para organizar uma COP melhor. Estamos pressionando por respostas mais concretas, em vez de sermos orientados a reduzir nossas delegações.”
Impacto nas delegações
A crise hoteleira ameaça o caráter amplo e inclusivo da conferência. Países em desenvolvimento alegam que não conseguirão enviar delegações completas.
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O governo holandês já cogita cortar sua delegação pela metade (de cerca de 90 pessoas para 45).
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O vice-ministro do Clima da Polônia, Krzysztof Bolesta, afirmou que sua equipe deve ser reduzida ao mínimo por falta de acomodações.
A pressão cresceu com a divulgação, pela Folha de S.Paulo, de um documento assinado por 25 negociadores da COP30 pedindo que parte do evento seja deslocada para outro local, caso o problema não seja solucionado.
Reação do governo brasileiro
O governo federal afirma estar buscando alternativas para contornar o impasse. Entre as medidas já anunciadas estão:
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Dois navios de cruzeiro que vão oferecer 6 mil leitos adicionais;
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Um sistema de reservas prioritárias para países em desenvolvimento, com diárias limitadas a US$ 220 (cerca de R$ 1.200);
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Negociações conduzidas pela Casa Civil com a rede hoteleira de Belém para tentar reduzir os preços.
Em nota, a Secretaria Extraordinária da COP30 (Secop) reiterou o “compromisso com a realização de uma conferência ampla, inclusiva e acessível”.
Desafio logístico
Belém conta hoje com 18 mil leitos de hotel, número considerado insuficiente para a expectativa de 45 mil participantes da COP30, incluindo chefes de Estado, ministros, diplomatas, cientistas e representantes da sociedade civil de mais de 190 países.
Risco político e climático
A COP30 é considerada estratégica para o Brasil e para a agenda global do clima, pois será a primeira conferência da ONU realizada na Amazônia, região símbolo da crise climática. O evento deve preparar o terreno para a revisão das metas de descarbonização em 2035, um marco decisivo para manter vivo o objetivo do Acordo de Paris de limitar o aquecimento global a 1,5 °C.
Entretanto, o impasse com a hospedagem ameaça a credibilidade da conferência e a imagem do Brasil como anfitrião. Especialistas alertam que um eventual esvaziamento de delegações estrangeiras pode comprometer negociações-chave sobre financiamento climático, preservação florestal e transição energética.
📌 Em resumo:
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Diárias em Belém para a COP30 chegam a R$ 10 mil, até 15 vezes acima do normal.
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ONU convocou reunião de emergência; próxima rodada será em 11 de agosto.
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Países pedem que o evento seja transferido se preços não caírem.
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Governo brasileiro promete medidas paliativas, mas não pode impor teto de preços.
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Risco real: esvaziamento da conferência mais importante do ano para a agenda climática global.





