O Brasil confirmou, nesta semana, os primeiros casos da variante XFG do coronavírus, identificada inicialmente na Ásia e que já circula em 38 países, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). As primeiras infecções brasileiras foram registradas no Ceará, entre 25 e 31 de maio, e divulgadas pelo governo estadual na última sexta-feira (4). Além do Nordeste, há também registros em São Paulo.
Em nota oficial, o Ministério da Saúde informou que foram confirmados, até o momento, oito casos da XFG no Brasil — seis no Ceará e dois em São Paulo. Não há registro de mortes relacionadas à nova cepa no país. A pasta assegura que mantém monitoramento constante do sequenciamento genético do vírus e reforça a importância da vacinação para conter eventuais impactos.
Aumento discreto no Ceará
No Ceará, autoridades de saúde observaram um crescimento moderado nos casos de Covid-19 nas últimas semanas. De acordo com boletim divulgado pela Secretaria Estadual da Saúde, a positividade dos testes para Covid subiu de praticamente 0% no início de junho para 10% no fim do mês. A maior parte das novas infecções foi registrada na capital, Fortaleza, embora os números exatos por município não tenham sido detalhados.
— É possível que a nova variante seja responsável por esse aumento de casos que nesse momento ainda é discreto, mas que a gente não sabe se pode de fato ter essa transmissão subitamente elevada nas próximas semanas — afirmou o secretário executivo de Vigilância em Saúde do Ceará, Antonio Silva Lima Neto, em vídeo divulgado pela secretaria.
Situação global sob controle, diz OMS
Apesar de ter se espalhado para quase 40 países, a OMS classificou a XFG como “variante sob monitoramento” e afirmou que o risco global permanece baixo. Nas Américas, a participação da XFG entre os casos subiu de 7,8% para 26,5%. Na Índia, a variante já é predominante, saltando de 17,3% para 68,7% dos casos durante a primavera local.
A OMS destacou que, embora haja aumento de casos e hospitalizações em algumas regiões, não há evidências de que a XFG cause quadros mais graves ou mortes em maior número. Além disso, as vacinas atualmente utilizadas seguem eficazes contra a nova cepa.
— Embora haja aumentos em casos e hospitalizações em algumas áreas, não há evidências de que a XFG cause doenças mais severas ou mortes — reforçou a organização em comunicado recente.
Variante é fruto de recombinação
De acordo com o infectologista Julio Croda, pesquisador da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, a XFG é fruto da recombinação de duas linhagens: LF.7 e LP.8.1.2, esta última já dominante em diversos países. Ambas descendem da variante Ômicron.
— A LP.8.1.2 se tornou dominante, e agora a XFG, que deriva dela, passou a predominar na Índia e está se espalhando pelo mundo — explicou Croda.
Segundo o especialista, a presença da XFG nas amostras sequenciadas globalmente saltou de 7% em junho para 23%.
— Quando uma variante se torna dominante, muito provavelmente é porque ela tem um dos dois mecanismos: ou é mais transmissível ou tem escape de resposta imunológica. Não há relação com maior gravidade — afirmou.
Vacinação ainda é principal defesa
Croda alertou que, embora a nova cepa não pareça mais letal, a baixa cobertura vacinal entre idosos preocupa. Ele lembrou que a OMS e o Ministério da Saúde recomendam ao menos uma dose atualizada da vacina contra a Covid-19, a exemplo da estratégia utilizada anualmente para a gripe.
— Existe uma recomendação clara para que os idosos recebam pelo menos uma dose atualizada da vacina, mas a adesão está baixa — frisou o infectologista.
No Brasil, segundo o Ministério da Saúde, mais de 14,2 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 já foram distribuídas em 2025. Ainda assim, a Covid-19 não é hoje o principal vírus respiratório em circulação no país — a influenza lidera as internações por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG). No entanto, especialistas alertam que a chegada da XFG pode alterar o cenário, dependendo da imunidade coletiva e das coberturas vacinais.
— A gente nunca sabe se o comportamento da variante no Brasil será igual ao de outros países. Depende de cobertura vacinal e de infecções prévias. Por isso, é fundamental garantir proteção principalmente nos grupos de risco — concluiu Croda.





