Em maio de 2022, uma reunião marcada por emoção e esperança reuniu franqueados da Cacau Show com seu fundador, Alexandre Costa. Em meio a relatos de dificuldades, falências e pedidos de ajuda, Costa os levou ao fundo da fábrica, acendeu uma fogueira simbólica e preparou um licor de cacau, dizendo que tudo daria certo.

Dois anos depois, para muitos franqueados, não deu.

Nos bastidores da maior rede de chocolates finos do mundo — e maior franquia do Brasil, com mais de 4.600 lojas segundo a ABF —, emergem denúncias graves de práticas abusivas. A reportagem ouviu 13 franqueados ou ex-franqueados da marca que relatam:

  • Cobrança de taxas consideradas abusivas, inclusive royalties sobre estoques não entregues;
  • Dívidas de até R$ 2 milhões, que teriam arruinado o patrimônio de vida de algumas famílias;
  • Pressões e ameaças veladas por parte de consultores da empresa;
  • Multas sem justificativa clara;
  • Um ambiente de “culto à personalidade” em torno do fundador da rede.

Um franqueado do Rio Grande do Sul, por exemplo, apresentou mensagens trocadas com a rede durante a tragédia das enchentes de 2023. Ao pedir o parcelamento das dívidas com a fornecedora, recebeu como resposta:

“Não existe possibilidade de parcelar. (...) Eu lamento pelo ocorrido nas enchentes, imagino que não deve ter sido nada fácil. Mas quando falamos de empresa e franquia, seguimos os padrões estabelecidos.”

A franqueada Náira Alvim Passionoto, que abriu uma unidade em Rancharia (SP), relata:

“Fiquei um ano sem receber produtos porque me recusei a pagar a taxa do Cacau. Fiquei inadimplente. Não recebi produtos, mas os royalties de 50% sobre o estoque continuaram sendo cobrados, assim como taxas de mídia.”

A Cacau Show, por sua vez, nega todas as acusações e afirma que cumpre rigorosamente os contratos com os franqueados. A empresa também reafirma seu compromisso com a transparência e a ética empresarial.

Apesar da negação oficial, o número de reclamações de franqueados insatisfeitos aumenta. Alguns denunciam que, em vez de uma parceria, a relação se transformou em submissão forçada a contratos com margens apertadas e penalizações recorrentes, muitas vezes levando pequenos empresários ao colapso financeiro.

O episódio expõe os desafios de um sistema de franquias em rápida expansão e levanta um debate sobre o equilíbrio de forças entre franqueador e franqueado no Brasil.

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