Em um marco na história da medicina moderna, cirurgiões norte-americanos da Califórnia realizaram o primeiro transplante de bexiga em um ser humano com sucesso. O paciente, Oscar Larrainzar, de 41 anos, sofria com sérias limitações após perder quase toda a bexiga devido a um câncer raro e já havia passado por anos de diálise.
O procedimento foi conduzido por Inderbir Gill e Nima Nassiri, especialistas em urologia e cirurgia de transplantes, no hospital da Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA). Eles consideram a cirurgia “a realização de um sonho” e esperam que esse seja o primeiro de muitos passos rumo à recuperação de qualidade de vida para pessoas com doenças severas da bexiga.
“Eu era uma bomba-relógio, mas agora tenho esperança”, afirmou Oscar após a cirurgia, emocionado.
O avanço que promete transformar a urologia
A bexiga transplantada veio de um doador em morte cerebral, e a cirurgia durou cerca de oito horas. Além da bexiga, Oscar também recebeu um rim novo durante o mesmo procedimento. A operação teve resultado positivo imediato: os rins começaram a funcionar assim que foram implantados, e o paciente já eliminou 9 quilos de retenção líquida nos dias seguintes.
Até então, pacientes sem bexiga precisavam de adaptações com intestino para redirecionar a urina, como condutos externos ou “neobexigas” internas, procedimentos que, segundo os médicos, envolvem altos riscos de complicações — cerca de 80% apresentam problemas como infecções, desequilíbrios eletrolíticos ou perda da função renal.
A complexidade do transplante de bexiga é imensa, devido à delicada vascularização do órgão. Os cirurgiões desenvolveram uma técnica inovadora que unifica os vasos antes da implantação, o que facilitou o enxerto e reduziu os riscos intraoperatórios.
Um paciente ideal para um momento histórico
Oscar Larrainzar já era conhecido da equipe: anos antes, o próprio Nassiri havia participado de sua cirurgia para retirada dos rins. Quando Oscar voltou à clínica em 2024, já sem perspectivas por conta de suas condições clínicas agravadas, ele se tornou o candidato ideal para um procedimento experimental. Ele sofria de adenocarcinoma de úraco, câncer raro que comprometeu completamente sua bexiga, reduzindo a capacidade de 300 ml para apenas 30 ml.
A cirurgia histórica é a primeira de cinco previstas em um ensaio clínico conduzido pela UCLA. A ideia é avaliar a viabilidade funcional e os riscos do procedimento, com o objetivo de consolidar o transplante de bexiga como opção real para pacientes com doenças debilitantes no órgão.
Um novo capítulo para os transplantes
De acordo com especialistas, esse avanço é comparável a outros marcos recentes da medicina, como os transplantes de face, mãos, útero e até pênis. A médica Despoina Daskalaki, do Tufts Medical Center, reforça:
“Se já conseguimos transplantar partes tão delicadas e complexas do corpo, por que não dar às pessoas uma bexiga funcional novamente?”
Gill e Nassiri afirmam que pretendem compartilhar os resultados em congressos médicos e publicações científicas nos próximos meses. Se tudo seguir conforme planejado, o transplante de bexiga pode se tornar uma nova esperança para milhares de pacientes no mundo inteiro.





