O secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Mark Rutte, afirmou nesta terça-feira (15) que países que continuam adquirindo petróleo e gás da Rússia, como o Brasil, podem enfrentar sanções econômicas severas, caso Moscou não demonstre compromisso concreto com negociações de paz para encerrar a guerra na Ucrânia.
“Se você é o presidente da China, o primeiro-ministro da Índia ou o presidente do Brasil e ainda compra petróleo russo, saiba que, se Moscou não levar as negociações de paz a sério, aplicarei sanções secundárias de 100%”, disse Rutte, em declarações feitas após reunião com congressistas norte-americanos em Washington.
A fala ecoa um movimento crescente no Congresso dos Estados Unidos, onde parlamentares trabalham em um projeto de lei prevendo sobretaxas ou restrições a países que sustentam o caixa do governo russo por meio do comércio de combustíveis fósseis. A medida busca cortar as fontes de receita que Moscou usa para financiar a guerra contra a Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022.
Brasil é pressionado
O Brasil, apesar de condenar formalmente a invasão russa em votações na ONU, mantém relações comerciais ativas com Moscou, principalmente no setor de fertilizantes e energia. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que, em 2024, o Brasil importou US$ 3,6 bilhões em combustíveis e derivados da Rússia — volume quase três vezes superior ao registrado antes do início da guerra.
O governo brasileiro, sob o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, defende posição neutra, insistindo em manter relações econômicas abertas tanto com o Ocidente quanto com parceiros como China, Rússia e Índia, dentro do bloco BRICS.
Contexto das sanções secundárias
Sanções secundárias são medidas econômicas que punem não apenas o país-alvo (neste caso, a Rússia), mas também empresas ou governos de terceiros que continuem negociando com ele. Tais medidas podem incluir restrições de acesso a sistemas financeiros ocidentais ou barreiras comerciais.
O tema é delicado para o Brasil, já que medidas nesse sentido poderiam impactar exportações brasileiras para os EUA e a Europa, afetando setores como agricultura, minério de ferro e indústria automotiva.
“As sanções secundárias são uma arma poderosa, mas também muito perigosa, porque podem provocar rupturas profundas em cadeias globais de suprimentos”, afirmou ao jornal britânico Financial Times a especialista em comércio internacional Maria Demertzis, do think tank Bruegel.
Governo brasileiro cauteloso
Até o momento, o Itamaraty não se pronunciou oficialmente sobre as falas de Rutte. Integrantes do governo brasileiro, em conversas reservadas, reconhecem preocupação com eventuais sanções, mas sustentam que o Brasil não aceitará imposições unilaterais que prejudiquem sua soberania econômica.
Analistas avaliam que o governo Lula será pressionado a rever a participação do Brasil no comércio energético com Moscou, sobretudo diante de riscos à reputação internacional e possíveis retaliações comerciais.
“Se essas sanções forem mesmo implementadas, o Brasil vai precisar escolher entre manter o fluxo de fertilizantes e energia mais baratos vindos da Rússia ou preservar o acesso aos mercados do Ocidente”, pondera o economista Lucas Ferraz, da FGV.
Próximos passos
A discussão sobre as sanções secundárias deve ganhar força nas próximas semanas, à medida que o Congresso americano retoma o tema. A fala de Rutte também aumenta a expectativa sobre a cúpula do G20, que acontece em outubro, em Istambul, onde o assunto promete ser tratado entre as maiores economias do planeta.
A crise diplomática envolvendo o comércio de petróleo russo pode se tornar mais um foco de tensão para o governo brasileiro, que busca equilibrar interesses geopolíticos e econômicos em meio a um cenário global cada vez mais polarizado.





