O Brasil voltou a registrar simultaneamente desequilíbrio nas contas públicas e externas — fenômeno conhecido como “déficits gêmeos” — a pouco mais de um ano das eleições presidenciais de 2026. Para especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo, o quadro guarda semelhanças com o segundo mandato de Dilma Rousseff, período que antecedeu a crise fiscal e o impeachment da ex-presidente.

Despesas em alta e juros recordes pressionam contas públicas

No campo fiscal, os números indicam deterioração acelerada. As despesas com juros da dívida pública somaram quase R$ 1 trilhão nos 12 meses até julho, impulsionadas pela Selic em 15% — a maior taxa desde 2017. O custo elevado da rolagem da dívida resultou em um déficit nominal de 7,12% do PIB no governo central, índice que chega a 8,5% do PIB ao incluir estados e municípios. Desse total, 8 pontos percentuais correspondem apenas aos juros.

A dívida bruta do governo geral também avançou, alcançando 77,5% do PIB em julho, um salto de seis pontos percentuais desde o início do atual governo Lula (PT). A falta de superávits primários recorrentes impede que o país reduza seu passivo, agravando o quadro estrutural.

Rombo externo cresce com importações e saída de lucros

No setor externo, o déficit em conta corrente subiu de 1,4% para 3,5% do PIB em um ano, puxado por uma balança comercial abaixo do esperado e pelo aumento das saídas líquidas de serviços, lucros e dividendos. Com a economia interna aquecida, as importações cresceram e superaram os ganhos obtidos com exportações.

Segundo dados do Banco Central, a queda dos preços internacionais de commodities, sobretudo minério de ferro e soja, também contribuiu para reduzir o superávit comercial, que havia sido recorde em 2023. Essa combinação pressiona as reservas internacionais e exige mais financiamento externo.

Especialistas alertam para riscos de estagflação e perda de confiança

Para economistas consultados pela Folha, o quadro atual remete ao observado em 2014-2015, quando a política fiscal expansionista somada ao desequilíbrio externo culminou em recessão e alta de juros. “A diferença é que agora há um mercado de trabalho mais aquecido e inflação sob controle, mas os sinais de alerta são semelhantes”, diz um ex-diretor do Banco Central.

Entre os riscos apontados estão a perda de credibilidade do arcabouço fiscal, a alta da dívida pública, a necessidade de elevar ainda mais os juros para conter pressões inflacionárias e uma possível redução no ritmo de investimentos estrangeiros.

O governo federal reafirma que pretende reverter gradualmente os déficits e alcançar 80% de alfabetização até 2030, mas analistas destacam que o caminho exigirá corte de gastos e maior previsibilidade das contas públicas.

Impacto político

A deterioração fiscal e externa tende a entrar no centro do debate eleitoral de 2026. O ambiente de incerteza econômica pode abrir espaço para candidatos que defendam políticas de austeridade mais firmes ou mudanças no arcabouço fiscal. Para investidores, a confiança no ajuste será determinante para evitar volatilidade cambial e fuga de capitais no próximo ano.

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