O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sofreu um revés expressivo no campo diplomático na última sexta-feira (11/7), ao ver fracassar a candidatura do brasileiro Fábio de Sá e Silva a uma das vagas na Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), principal órgão de monitoramento e denúncia de violações de direitos humanos nas Américas. O brasileiro obteve apenas três votos na eleição realizada no âmbito da Organização dos Estados Americanos (OEA), enquanto o mexicano José Luis Caballero Ochoa conquistou 23 votos e foi eleito. Cinco países votaram em branco.

A disputa expôs as dificuldades do governo Lula em projetar influência regional num ambiente marcado por tensões políticas e econômicas, especialmente com os Estados Unidos. A candidatura de Sá e Silva, que é professor da Universidade de Oklahoma e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), vinha sendo tratada como prioridade diplomática desde março deste ano. O apoio à candidatura foi endossado pelo próprio presidente Lula, pelo chanceler Mauro Vieira e pelo advogado-geral da União, Jorge Messias.

No entanto, a ofensiva diplomática foi abruptamente interrompida. Em entrevista ao portal G1, Sá e Silva relatou ter sido informado pelo Itamaraty, às vésperas da eleição, que o Brasil recuaria e redirecionaria seu apoio ao candidato mexicano, numa decisão que causou surpresa entre aliados e especialistas em relações internacionais. “Fui informado pelo Itamaraty, por volta das 17h, enquanto fazia campanha em Washington, que o Brasil pediria o encaminhamento dos votos para o mexicano”, contou o candidato.

Pressões dos EUA e ambiente geopolítico

Segundo fontes ouvidas pela revista Veja, a desistência do governo brasileiro estaria ligada às tensões crescentes com o presidente dos EUA, Donald Trump, reeleito em 2024. A relação entre Trump e Lula se deteriorou após o governo norte-americano anunciar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, intensificando atritos comerciais e políticos.

Além disso, a eleição da cubano-americana Rosa María Payá para outra vaga na CIDH reforçou o peso da influência norte-americana no organismo. Payá, conhecida ativista de direitos humanos, é vista como aliada de Trump e defensora de uma postura dura contra regimes autoritários na América Latina, o que também pode ter tornado menos viável a permanência do Brasil na disputa, para evitar maior isolamento diplomático.

Ausência de brasileiro na CIDH

O Brasil não possui um representante na CIDH desde 2015, o que preocupa diplomatas e especialistas, sobretudo diante dos debates cada vez mais acalorados na região sobre temas como liberdade de expressão, combate à desinformação, direitos indígenas e atuação judicial. A ausência brasileira na comissão reduz a capacidade do país de influenciar decisões e relatórios, especialmente em casos envolvendo o próprio Brasil.

A situação contrasta com a postura de países como Índia ou México, que, mesmo em tensões comerciais com Washington, têm conseguido preservar espaços em organismos multilaterais por meio de estratégias pragmáticas e negociações bilaterais.

Para analistas, o caso revela um dilema para o governo Lula: manter sua agenda ideológica ou priorizar interesses estratégicos para assegurar espaço no cenário internacional. “Essa derrota é simbólica porque sinaliza que o Brasil está, neste momento, isolado politicamente em alguns foros regionais, ainda mais num ambiente altamente polarizado como a OEA sob influência dos EUA”, explica a cientista política Carolina de Moura, da Universidade de Brasília (UnB).

O Ministério das Relações Exteriores ainda não informou se o Brasil apresentará outro candidato nas futuras composições da CIDH.

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