O Brasil perdeu neste sábado um de seus maiores escritores contemporâneos. Luis Fernando Verissimo, cronista, romancista, humorista e saxofonista apaixonado por jazz, morreu aos 88 anos, em Porto Alegre. Ele estava internado desde o dia 17 de agosto na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Moinhos de Vento, em decorrência de uma pneumonia.
Nos últimos anos, o autor enfrentava uma série de problemas de saúde, incluindo doença de Parkinson, sequelas de um AVC sofrido em 2021 e complicações cardíacas.
Um herdeiro da literatura brasileira
Filho do consagrado escritor Erico Verissimo e de Mafalda Verissimo, Luis Fernando nasceu em 26 de setembro de 1936, em Porto Alegre. Ainda jovem, mudou-se para os Estados Unidos, quando o pai lecionou na Universidade da Califórnia. Foi lá que despertou seu amor pelo jazz, tornando-se saxofonista e integrante da banda Jazz 6.
Embora tenha iniciado a carreira literária somente após os 30 anos, Verissimo construiu um legado impressionante: mais de 70 livros publicados e cerca de 5,6 milhões de cópias vendidas. Seu estilo combinava humor, ironia e crítica social, refletindo com leveza e profundidade o cotidiano brasileiro.
Obras e legado
Entre seus títulos mais conhecidos estão O Analista de Bagé (1981), Ed Mort (1979), Comédias da Vida Privada (1994) e O Santinho (1991). Muitas de suas crônicas ultrapassaram as páginas dos jornais e foram adaptadas para a televisão, como a série Comédias da Vida Privada, exibida pela Globo entre 1995 e 1997, que reuniu ícones da comédia nacional como Marco Nanini, Fernanda Torres e Marieta Severo.
Na imprensa, Verissimo teve presença marcante como colunista em jornais e revistas de grande circulação, como O Estado de S. Paulo, O Globo, Zero Hora e Veja.
Humor, política e cultura
Conhecido por seu posicionamento político, Verissimo nunca escondeu a inclinação à esquerda. Foi um crítico ácido do governo Jair Bolsonaro (PL) e, ao longo da vida, defendeu que ser de esquerda era “uma decorrência da percepção das desigualdades do país”.
Na música, realizou o sonho juvenil de tocar jazz e, nas letras, explorou o humor como ferramenta de crítica social. Autodefinia-se como um “gigolô das palavras”:
“Sou um gigolô das palavras. Vivo à custa delas. E tenho com elas a exemplar conduta de um cáften profissional. Abuso delas”, escreveu em uma de suas crônicas.
O adeus de um cronista do cotidiano
Mesmo debilitado, Verissimo manteve sua visão leve e irônica da vida e da morte. Em entrevista à Folha de S.Paulo em 2011, disse:
“A morte é uma injustiça, essa é a melhor descrição. Mas a gente tem de conviver com isso.”
Casado por 61 anos com Lúcia Verissimo, com quem teve três filhos, ele deixa um legado cultural que atravessou gerações e marcou tanto a literatura quanto a televisão brasileira.
A morte de Luis Fernando Verissimo encerra uma era da crônica nacional, mas sua voz seguirá viva, ecoando entre páginas, risos e reflexões.





