Em uma ofensiva nacional por avanços na reforma agrária, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) promoveu nesta quarta-feira (23/7) a ocupação de sedes regionais do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) em 21 estados e no Distrito Federal, além de manifestações em prédios do Banco do Brasil e secretarias estaduais. Os atos fazem parte da Semana Camponesa, mobilização que neste ano intensifica as cobranças ao governo federal e aos estados por políticas concretas para o campo.
De acordo com o balanço divulgado pelo próprio movimento, cerca de 17 mil pessoas participaram de 26 mobilizações desde a última segunda-feira (21/7). A principal pauta: a retomada efetiva da política de reforma agrária, paralisada, segundo os líderes do MST, mesmo em um governo de perfil progressista.
Reunião com Lula e cobrança direta
Na manhã desta quarta-feira, representantes do MST se reuniram com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e com a ministra da Secretaria de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, para levar pessoalmente as demandas da mobilização.
Ceres Hadich, da direção nacional do MST, destacou que a conversa também abordou questões geopolíticas, como a atuação do Brasil nos BRICS e tarifas internacionais, mas reforçou que a reforma agrária é parte da “luta por soberania nacional”.
“A pauta da reforma agrária não está desconectada do contexto de defesa da soberania. Estamos falando de acesso à terra, produção de alimentos e democratização do território”, pontuou Ceres.
Cobranças ao governo: assentamentos, crédito e educação no campo
Os quatro eixos principais da mobilização incluem:
- Criação de novos assentamentos e regularização dos já existentes;
- Ampliação do crédito rural para pequenos produtores;
- Educação no campo, com políticas públicas para escolas rurais;
- Reconhecimento da reforma agrária como instrumento estratégico de soberania nacional.
A mobilização ocorre às vésperas do Dia Internacional da Agricultura Familiar, comemorado em 25 de julho. Para o MST, a data deve reforçar o papel estratégico das famílias do campo para a produção de alimentos e a economia popular.
Ações em todo o Brasil
Em São Paulo, dezenas de integrantes ocuparam a sede do Incra. Para Delwek Matheus, da direção estadual do movimento, embora exista diálogo com o governo Lula, “não há reforma agrária acontecendo efetivamente no país”. O também dirigente Marcio José acrescentou que além da distribuição de terras, o movimento exige infraestrutura nos assentamentos e condições de financiamento.
Em Belém (PA), cerca de 400 militantes foram ao prédio do Banco do Brasil para pressionar por mais crédito agrícola e liberação de terras. Ocupações também ocorreram em Vila Velha (ES), João Pessoa (PB), Recife (PE), Goiânia (GO) e Belo Horizonte (MG).
A Associação Brasileira de Reforma Agrária (ABRA) também se manifestou. Em nota publicada no último dia 17, a entidade alertou:
“Há um ano e meio do fim do mandato, o governo tem pouco tempo para acelerar o ritmo das políticas públicas que fortalecerão a Reforma Agrária no Brasil”.
Governo diz manter diálogo, mesmo durante ocupações
Elvio Aparecido Motta, superintendente federal do Ministério do Desenvolvimento Agrário em São Paulo, disse que a ocupação da sede paulista já era esperada e garantiu que a pasta “nunca fechou as portas” ao diálogo com os movimentos sociais.
Apesar disso, o clima entre militantes é de frustração crescente com a lentidão nas políticas agrárias. A pressão tende a aumentar nas próximas semanas, principalmente com a aproximação do calendário eleitoral de 2026 — quando a base social do governo também vai exigir resultados mais concretos em áreas historicamente sensíveis, como a democratização do acesso à terra.





