A política externa brasileira volta a ser alvo de críticas no cenário internacional, desta vez por parte dos Estados Unidos. O motivo: o crescimento explosivo das importações de diesel da Rússia, em meio às sanções ocidentais impostas ao regime de Vladimir Putin após a invasão da Ucrânia. A guinada nas relações comerciais colocou o Brasil novamente sob o radar de Washington, principalmente após o ex-presidente Donald Trump, que lidera as pesquisas para as eleições americanas de 2026, endurecer o tom contra países que mantêm comércio ativo com Moscou.
Na última semana, Trump impôs tarifa adicional de 25% à Índia, em represália à continuidade da compra de petróleo russo, e ameaçou estender medidas semelhantes ao Brasil, caso a tendência de aumento nas importações russas continue.
Segundo dados da ONU/Comtrade, o Brasil importou apenas 101 mil toneladas de diesel russo em 2022. Em 2024, o volume explodiu para 6,1 milhões de toneladas, um salto de mais de 6.000%. Em valores, isso representou US$ 5,4 bilhões (R$ 29,4 bilhões) em compras de diesel da Rússia apenas em 2024.
Esse aumento alterou drasticamente a balança de fornecedores: em 2022, 57% do diesel importado no Brasil vinha dos Estados Unidos. Em 2024, esse percentual caiu para apenas 17%, segundo dados da Fecombustíveis (Federação do Comércio de Combustíveis e Lubrificantes). A entidade aponta que atualmente 65% de todo o diesel importado no Brasil tem origem russa.
Reação dos EUA
A mudança no perfil de importação brasileira provocou reações em Washington. O Departamento de Estado já expressou “preocupação com o enfraquecimento das sanções multilaterais” e alertou que países que colaboram com o escoamento de energia russa “devem estar cientes das consequências comerciais e diplomáticas”.
Donald Trump, que poderá retornar à Casa Branca caso vença as eleições em 2026, tem adotado uma postura cada vez mais agressiva com países que importam petróleo e derivados da Rússia. Em discursos recentes, tem chamado o governo Lula de “omisso” e “conivente” com regimes que desafiam o Ocidente, como Rússia, Irã, China e Venezuela.
Lula e Putin: aproximação estratégica
Desde que reassumiu a Presidência em 2023, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem mantido uma política externa marcada por maior aproximação com os países do chamado “Sul Global”, inclusive com a Rússia. Durante as cúpulas do BRICS, Lula já se recusou a aderir às sanções ocidentais contra Putin e chegou a criticar a OTAN pela escalada da guerra na Ucrânia.
Apesar das pressões internacionais, o governo brasileiro defende que as compras de diesel russo são motivadas por preços mais competitivos e vantagens logísticas, especialmente diante da crise de abastecimento global causada pela guerra e pela desorganização das cadeias logísticas pós-pandemia.
Mercado energético em reconfiguração
A reconfiguração dos fluxos energéticos é global. Com as sanções da União Europeia e dos EUA à Rússia, o país de Putin passou a redirigir sua produção de petróleo e derivados a países da Ásia, África e América Latina. Brasil, Índia e China aparecem como principais destinos dessa nova estratégia comercial russa, com preços abaixo da média internacional.
Especialistas alertam, no entanto, para os riscos diplomáticos e econômicos. O aumento da dependência do diesel russo pode expor o Brasil a retaliações comerciais, principalmente em caso de novo governo conservador nos Estados Unidos. Além disso, pode comprometer relações estratégicas com o Ocidente, sobretudo em temas como segurança energética, transição verde e acordos de livre comércio.





