O tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos, anunciado pelo presidente Donald Trump, passou a valer nesta quarta-feira (6). A medida soma-se à tarifa-base de 10% já aplicada a todos os países, resultando na maior sobretaxa já imposta a qualquer nação pelo governo norte-americano.

Trump justificou o decreto com base em uma “emergência nacional” e acusou o Brasil de adotar “condutas incomuns e extraordinárias” em políticas comerciais. Além do Brasil, países como Síria (41%), Suíça (39%), Canadá (35%) e México (30%) também foram afetados, mas nenhum deles com um percentual tão alto quanto o brasileiro.


Produtos isentos e itens sobretaxados

Segundo comunicado da Casa Branca, 694 itens brasileiros ficaram de fora do acréscimo de 40% e continuam pagando apenas a taxa de 10% e as tarifas específicas por produto. Entre os principais que escaparam do tarifaço estão:

  • Minério de ferro, alumínio, estanho e silício

  • Petróleo, gás natural e carvão

  • Polpa de madeira, cortiça e papel e celulose

  • Aeronaves civis, drones, helicópteros e motores elétricos

  • Ouro, prata e fertilizantes

  • Suco de laranja e castanha-do-pará

Entretanto, produtos estratégicos do agronegócio ficaram de fora da lista de isenção e passam a pagar 50% de tarifa:

  • Café

  • Cacau

  • Carne bovina, suína e de frango

  • Frutas

  • Têxteis, calçados e móveis


Café: o principal alvo das negociações

O setor cafeeiro é o que mais pressiona por mudanças. O café representou US$ 1,29 bilhão em exportações para os EUA apenas no primeiro semestre de 2025, equivalente a quase 20% da receita total do agronegócio brasileiro com os americanos, segundo o Agrostat.

Jackson Campos, diretor de relações institucionais da AGL Cargo, avalia que a pressão deve levar à retirada do café da lista de sobretaxa:

“É difícil encontrar novos fornecedores rapidamente. Além disso, há questões regulatórias e de qualidade que forçam o mercado americano a continuar comprando do Brasil, mesmo com tarifa”, diz.

O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) já articula com o setor nos EUA e com autoridades comerciais para que a bebida seja classificada como produto essencial e retirada do tarifaço.


Impacto no mercado e risco de inflação nos EUA

Stefânia Ladeira, gerente de produtos da Saygo Comex, lembra que os Estados Unidos produzem apenas 1% do café que consomem e dependem de fornecedores externos:

“Mesmo que busquem alternativas como Vietnã ou Colômbia, a oferta é insuficiente e há barreiras logísticas e sanitárias. Isso pode gerar inflação interna e acelerar a revisão da tarifa”, analisa.


Outras negociações em andamento

Além do café, a carne bovina e suína também devem entrar na pauta de isenções. A Associação Brasileira de Frutas informou que 77 mil toneladas de frutas brasileiras foram enviadas aos EUA em 2024, totalizando US$ 148,3 milhões. Embora o setor de frutas não seja o mais afetado, a sobretaxa deve reduzir a competitividade.

Na indústria, a Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg) aposta em negociações envolvendo ferro-ligas, terras raras e minerais críticos:

“Os EUA têm interesse no desenvolvimento de tecnologia em parceria com o Brasil. Se o país negociar bem, alguns setores industriais podem se beneficiar”, afirmou Flávio Roscoe, presidente da Fiemg.


Cenário político e próximos passos

Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, mais de 80% dos produtos do agro brasileiro não foram incluídos na lista de exceções. O Ministério da Fazenda confirmou que está articulando com o Departamento de Comércio dos EUA para buscar isenções gradativas.

Enquanto isso, exportadores já calculam o aumento de custos logísticos e a possível perda de participação no mercado americano, caso as tarifas se mantenham por muito tempo.

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