O agronegócio brasileiro atravessa uma crise sem precedentes, manifestada pelo aumento expressivo da inadimplência entre produtores rurais e uma postura cada vez mais rigorosa do Banco do Brasil (BB).
Inadimplência recorde e impacto financeiro para o BB
No segundo trimestre de 2025, o índice de inadimplência (produtos com parcelas vencidas há mais de 90 dias) no segmento do agronegócio subiu para 3,49%, contra 1,32% no mesmo período do ano anterior.
A instituição estima que 20 mil produtores rurais estão inadimplentes há mais de 90 dias; e alarmantemente, 74% desses nunca haviam registrado atrasos antes de 2023.
Lucro despenca e corte de projeções
Em meio à deterioração da carteira de crédito agro, o lucro ajustado do BB no segundo trimestre de 2025 caiu 60%, totalizando R$ 3,8 bilhões, bem abaixo das expectativas do mercado. O banco também reduz seu guidance para 2025 — agora projetando lucro ajustado entre R$ 21 bilhões e R$ 25 bilhões (antes eram R$ 37–41 bilhões) — e reduziu o payout de dividendos de 40–45% para 30%.
Recuperação judicial em massa: litígio e preocupações
Os pedidos de recuperação judicial (RJ) no setor agropecuário totalizaram 389 no 1º trimestre de 2025, alta de 45% em relação ao mesmo período de 2024idas acumuladas de R$ 5,4 bilhões.
O BB passou a criticar fortemente escritórios de advocacia que estariam incentivando o uso massivo da recuperação judicial, muitas vezes antes mesmo de tentativas de renegociação extrajudicial. A instituição afirmou que alguns desses escritórios fazem campanhas em redes sociais para estimular os produtores a recorrer à RJ, e classificou a prática como litigância abusiva.
Contra-ataque institucional
Durante coletiva em 15 de agosto, a presidente do BB, Tarciana Medeiros, anunciou que o banco avaliará ações judiciais contra os escritórios de advocacia que estaria agindo de forma “ostensiva” ao incentivar pedidos de recuperação judicial sem esgotar alternativas de renegociação.
Além disso, o banco firmou um termo de cooperação técnica com a AGU (Advocacia-Geral da União) e acionou o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) para combater essa atuação considerada predatória.
Crédito mais seletivo e garantia mais robusta
Para a safra 2025/26, o BB anunciou uma política de crédito mais cautelosa, focando em produtores com garantias menos vulneráveis. O banco passou a priorizar a alienação fiduciária em detrimento da tradicional penhora de safra. O uso desse mecanismo de garantia mais sólido em agosto de 2025 já é o dobro do observável em agosto de 2024.
Causas profundas e contexto sistêmico
A crise no agronegócio não é apenas resultado dos eventos climáticos recentíssimos — como a seca de 2023 e as enchentes de 2024 — mas também de um acúmulo de fatores macroeconômicos e estruturais: aumento de juros, câmbio desfavorável, alta dos custos de insumos e esgotamento da capacidade de rolagem das dívidas iniciada na pandemia.
A expansão do instrumento de recuperação judicial para produtores rurais pessoa física a partir de 2020 também aumentou o uso do mecanismo de maneira nem sempre justificada — podendo trazer riscos à credibilidade do instrumento.
Análise e implicações
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Setor agro em alerta: O aumento de inadimplência e RJs evidencia fragilidades no sistema de crédito rural, especialmente para pequenos e médios produtores.
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Pressão sobre o BB: Como principal financiador do agronegócio — responsável por cerca de 50% dos recursos do Plano Safra e com 30% da sua carteira em crédito agro — o banco está diretamente exposto à crise.
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Risco moral e sistemas de garantias: O uso excessivo da recuperação judicial pode implicar em risco moral, reduzindo a disposição de pagamento mesmo quando há capacidade financeira.
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Efeito dominó no crédito rural: A adoção de critérios mais rigorosos e garantias robustas pode restringir o acesso ao crédito, afetando a produção da safra 2025/26 e a dinâmica do agronegócio brasileiro a curto prazo.

