Um levantamento divulgado com base na pesquisa Latinobarómetro 2020 revela que entre 50,6 e 61,6 milhões de brasileiros, cerca de 26% da população, vivem sob a chamada governança criminal – o conjunto de regras impostas por organizações criminosas aos moradores de determinados territórios.
O Brasil lidera o ranking latino-americano, seguido por Costa Rica (13%), Honduras (11%), Equador (11%), Colômbia (9%), El Salvador (9%), Panamá (9%) e México (9%). O estudo aponta que essas regras influenciam todos os aspectos da vida comunitária, desde as eleições até o acesso a serviços públicos.
Facções e redução ou aumento da violência
Pesquisadores apontam que a presença de facções pode ter efeitos paradoxais: em algumas áreas, como São Paulo, houve redução de homicídios na década de 2000, associada a acordos de paz entre grupos criminosos e Estado, como no caso das maras em El Salvador e dos combos de Medellín na Colômbia.
O fenômeno é relacionado principalmente à ascensão do Primeiro Comando da Capital (PCC). Segundo Benjamin Lessing, professor de ciência política da Universidade de Chicago, a força do Estado e da repressão policial pode paradoxalmente estimular a expansão da governança criminal:
“Quanto mais existe a ameaça da polícia entrar e apreender drogas, mais a facção tem incentivo para governar um território.”
Testemunhos da vida sob facções
Moradores de comunidades dominadas por facções relatam mudanças na violência cotidiana. O motorista de Uber José*, morador do bairro Jorge Teixeira, na Zona Leste de Manaus, afirma que desde que o Comando Vermelho (CV) assumiu o controle do território, houve redução de brigas, roubos e violência doméstica. Segundo ele, integrantes da facção expulsaram moradores que infringiram suas regras, e a polícia passou a ser evitada pela comunidade.
Mapa das facções no Brasil
Segundo levantamento publicado por O Globo em agosto de 2025, o Brasil possui 64 facções criminosas distribuídas pelos 27 estados. Entre elas:
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PCC: presença em 25 unidades da federação
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Comando Vermelho (CV): 26 estados
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Terceiro Comando Puro (TCP) e Amigos dos Amigos (ADA): atuação interestadual no Rio de Janeiro
Os estados com maior concentração de grupos são Bahia (17), Pernambuco (12) e Mato Grosso do Sul (10). O estado de Roraima abriga o grupo estrangeiro Tren de Aragua, da Venezuela. Já o Rio de Janeiro é considerado o maior exportador de facções para outras regiões do país.
Contexto e desafios
Especialistas alertam que, embora o número de facções nacionais esteja bem documentado, é difícil determinar se elas estão crescendo ou diminuindo, especialmente os grupos menores ou de atuação circunstancial. A falta de critério oficial para diferenciar uma facção criminosa de uma gangue local dificulta a análise.
O estudo reforça que a governança criminal no Brasil é um fenômeno complexo, fortemente ligado à repressão estatal, às dinâmicas locais de poder e ao tráfico de drogas, e que atinge diretamente um quarto da população do país, evidenciando desafios significativos para políticas de segurança pública e de prevenção à criminalidade.

