Após anos vivendo de forma irregular nos Estados Unidos, uma família de Presidente Médici, em Rondônia, foi deportada pela imigração norte-americana e agora enfrenta sérias dificuldades para recomeçar a vida no Brasil. O caso ganhou repercussão nesta semana por envolver uma mulher com doença rara, que teve o tratamento abruptamente interrompido e encontra obstáculos no SUS para retomar o acompanhamento médico.
O pedreiro R., de 36 anos, sua esposa S., e o filho de 4 anos viviam há aproximadamente cinco anos na Flórida, onde mantinham uma rotina aparentemente estável, mesmo com o status migratório irregular. R. trabalhava na construção civil, recebendo cerca de US$ 200 por dia, e acreditava estar fora da mira das autoridades por não possuir antecedentes criminais. A família chegou aos Estados Unidos por vias clandestinas, como milhares de brasileiros que tentam buscar melhores condições de vida no exterior.
Entretanto, no início deste mês, foram surpreendidos com uma convocação do ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) para uma suposta atualização no processo migratório. Ao chegarem ao local, foram detidos, tiveram os celulares apreendidos, e em menos de 48 horas estavam sendo deportados para o Brasil, com destino final em Fortaleza (CE). O veículo da família permaneceu no estacionamento do órgão de imigração.
Tratamento médico interrompido e caos no atendimento do SUS
O drama da família se agravou com a situação de saúde de S., que convive com uma doença autoimune rara, que ela preferiu não divulgar publicamente por questões pessoais. Nos Estados Unidos, ela fazia uso de medicamentos biológicos fornecidos por meio de um plano de saúde particular e passava por acompanhamento especializado em Tampa, na Flórida.
Agora de volta ao Brasil, S. relata enormes dificuldades para conseguir atendimento adequado pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “O posto daqui não sabe nem por onde começar. Estou há dias sem medicação e com sintomas se agravando. Estou cansada de ouvir ‘tem que aguardar a regulação’ enquanto meu corpo dói todo dia”, desabafou.
Ela também afirmou que a interrupção do tratamento pode levar a danos irreversíveis, uma vez que o uso contínuo dos medicamentos é essencial para conter a progressão da doença.
O caso da família de Presidente Médici ocorre em meio a um cenário crescente de deportações de brasileiros dos EUA, impulsionado pelo endurecimento das políticas migratórias com o retorno de Donald Trump à corrida eleitoral. Embora ainda não tenha retomado o cargo, a influência de sua retórica já tem pressionado autoridades americanas a reforçarem ações contra imigrantes sem documentação legal.
Dados do Departamento de Segurança Interna dos EUA revelam que mais de 40 mil brasileiros foram detidos ou deportados entre 2021 e 2024, com aumento expressivo de deportações sumárias desde o fim do Título 42 – dispositivo que limitava deportações durante a pandemia. Além disso, centros de detenção de imigrantes seguem superlotados, com denúncias de separações familiares e deportações relâmpago.
A família de R. desembarcou em Rondônia apenas com as roupas do corpo e poucos pertences. Sem casa própria, estão abrigados na residência de parentes em Presidente Médici, e enfrentam dificuldades para regularizar documentos, buscar emprego e garantir o mínimo para o filho pequeno.
S. afirma que o retorno foi “um choque de realidade”, e diz não se arrepender de ter ido para os EUA, mas lamenta profundamente o tratamento recebido na deportação. “Fomos tratados como criminosos. Não tivemos tempo de nos despedir de amigos, nem de avisar nada. Meu filho perdeu os brinquedos, a escolinha, tudo. Agora estamos começando do zero.”
Apoio social é limitado
A Defensoria Pública da União (DPU) informou que famílias deportadas podem ter acesso a programas assistenciais, mas dependem do apoio de estados e municípios. Em Rondônia, a Secretaria de Assistência Social confirmou que não há política específica de acolhimento para deportados, mas que casos como o da família podem ser encaminhados para atendimento emergencial por meio do CRAS local.
Já a Secretaria de Saúde informou que o caso será avaliado por uma equipe médica da rede estadual, e que o protocolo para doenças raras envolve trâmites específicos de regulação para centros especializados fora do estado.

