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À espera da COP30: Amazônia quer ser ouvida, mas ainda luta por água potável e saneamento

Enquanto Belém se prepara para sediar a 30ª Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas (COP30), em novembro de 2025, comunidades amazônicas próximas ao centro da capital paraense ainda convivem com problemas básicos de infraestrutura, como falta de água potável e saneamento. A poucos minutos do centro histórico da cidade, a realidade na Ilha do Combu expõe o contraste entre o protagonismo global que a Amazônia conquistará no evento e o abandono vivido por seus próprios moradores.

A COP30 será a primeira realizada na Amazônia, e a expectativa é reunir líderes mundiais, ambientalistas e representantes de povos tradicionais para discutir ações urgentes diante da crise climática. Porém, a escolha simbólica do local contrasta com a exclusão de muitas comunidades insulares das obras previstas para o evento.

Vida sem água potável

Na Ilha do Combu, que representa parte dos 65% do território insular de Belém, a água potável é um privilégio restrito a quem pode pagar. Rosivaldo de Oliveira Quaresma, comerciante e morador da ilha, conta que precisa atravessar o Rio Guamá constantemente para buscar galões de água mineral. “É caro para a gente, mas não tem outra opção. Usamos a água do rio só para lavar louça, roupa e banheiro, com um tratamento simples. Para beber, só a mineral mesmo”, relata.

A água encanada, que abastece boa parte da área continental da cidade, não chega até a região. Segundo Rosivaldo, seria preciso um grande esforço financeiro para instalar sistemas coletivos de captação e tratamento, algo distante da realidade da população ribeirinha.

Saneamento improvisado

O esgoto também é uma preocupação. Sem rede de saneamento, as cerca de 596 famílias da Ilha do Combu usam fossas sépticas improvisadas. Em épocas de maior movimento turístico, essas estruturas não dão conta da demanda, colocando em risco o equilíbrio ambiental da região, que é uma Área de Proteção Ambiental (APA) criada há 28 anos.

Exceções pontuais mostram que soluções sustentáveis são possíveis. A professora aposentada Ana Maria de Souza investiu em uma fossa ecológica de evapotranspiração, construída com apoio de pesquisadores da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra). O sistema usa entulho, pneus e plantas da região, como bananeiras, para tratar o esgoto de forma eficiente e ecológica. “Estou muito feliz, porque tenho a fossa ecológica na minha casa. Foi um investimento que valeu a pena”, celebra.

Investimentos concentrados na área continental

Até o momento, 30 obras relacionadas à COP30 estão em andamento, mas todas concentradas na parte continental de Belém. As intervenções incluem macrodrenagem de canais, canalização de rios, instalação de redes de água e esgoto, e pavimentação de ruas. Os comitês organizadores informaram que as ilhas não foram incluídas nas etapas atuais.

Para os moradores da Rua Timbó, na área continental, as melhorias já fazem diferença. Glaybson Ribeiro, técnico em eletrônica, vive há 25 anos à beira de um dos canais já drenados. “Antes era um sofrimento. Toda chuva era uma enchente. Agora a situação melhorou muito”, conta. Raimundo da Costa Nunes, vendedor de peixe, diz que não sente falta das árvores que foram retiradas para as obras. “Melhor quente e seco do que cheio d’água”, afirma.

Planos ainda em elaboração

O Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade (Ideflor-bio), responsável pela gestão da Ilha do Combu, anunciou que está finalizando o plano de manejo da APA, mas ainda não há previsão de quando o documento será publicado. Sem ele, as ações de infraestrutura ficam limitadas por exigências legais e ambientais.

A presidente do comitê estadual da COP30, Hana Ghassan, garantiu que as obras em andamento estarão concluídas até novembro e que cerca de 900 mil pessoas serão beneficiadas com as melhorias em saneamento. No entanto, as ilhas, que abrigam milhares de pessoas, continuam à margem dos investimentos.

Um chamado por visibilidade

Com a aproximação da COP30, cresce a cobrança para que a pauta da justiça climática inclua as vozes de quem vive na floresta — não apenas como tema de discursos, mas como beneficiários diretos das políticas públicas.

Para moradores como Rosivaldo, o legado da COP30 deveria ir além das obras de fachada. “A gente quer participar, quer melhorias reais. Não adianta falar de futuro sustentável se a gente ainda não tem nem água para beber”, desabafa.

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