Durante o 17º Encontro Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), realizado no domingo (3/8), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva surpreendeu ao defender abertamente o retorno à direção nacional do partido de nomes historicamente ligados aos escândalos do Mensalão e do Petrolão — incluindo José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e João Vaccari Neto.
O evento, que reuniu lideranças petistas de todo o país, teve clima de reconciliação com figuras da chamada “velha guarda” do partido. Lula foi além das menções protocolares e exaltou os ex-dirigentes com entusiamos.
“Nós precisamos, daqui pra frente, reparar os erros que cometemos. Se a gente não comenta os erros, podemos continuar cometendo. E eu queria dizer pra vocês que tô feliz que o companheiro Delúbio está presente aqui nessa plenária, que o Vaccari também tá aqui. Acho extremamente importante a volta do Zé Dirceu para a direção nacional do PT, acho que o companheiro Genoíno deveria estar nessa também”, afirmou Lula.
A fala foi recebida com aplausos e gritos de apoio a José Dirceu, que teve sua sentença anulada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2023, assim como outros petistas condenados durante a Operação Lava Jato e o julgamento do Mensalão. As anulações foram baseadas em decisões que apontaram a parcialidade do então juiz Sergio Moro, hoje senador (União-PR).
Dirceu planeja volta ao Congresso
Com as condenações anuladas e os direitos políticos restabelecidos, José Dirceu articula uma candidatura a deputado federal por São Paulo em 2026. A iniciativa conta com o apoio direto de Lula e encontra simpatia dentro do partido, especialmente entre setores que ainda veem Dirceu como um estrategista fundamental do projeto petista de poder.
Dirceu foi ministro da Casa Civil no primeiro governo Lula e ocupou uma cadeira na Câmara Federal até ser cassado em 2005, em meio às denúncias do Mensalão. Já José Genoino, ex-presidente do PT, e Delúbio Soares, ex-tesoureiro, também foram condenados e posteriormente beneficiados por decisões do STF.
João Vaccari Neto, outro ex-tesoureiro petista, foi preso e condenado na Lava Jato, mas teve a sentença anulada anos depois. Ele também marcou presença no evento.
Reações
A fala de Lula reacende críticas da oposição, que vê no gesto um “revanchismo político” e uma tentativa de reescrever a história recente do Brasil sem o devido reconhecimento dos episódios de corrupção que marcaram os governos petistas.
Já internamente, o gesto é interpretado como uma tentativa de consolidar o PT num momento em que o partido enfrenta desafios de renovação e disputa espaço com outras forças da esquerda, como o PSOL e a federação Rede–PSB.
O que está em jogo
A reabilitação simbólica — e agora política — de figuras como Dirceu e Genoíno sinaliza que o PT de Lula não pretende romper com seu passado, mas incorporá-lo ao projeto eleitoral para 2026. Resta saber se essa estratégia trará mais força ou resistência diante do eleitorado, especialmente do centro político, que pode ver com ressalvas o retorno de nomes tão associados a escândalos.

